Antes de falar do modelo de IA, vale entender o que é um modelo, qualquer modelo. E todo modelo começa por uma abstração: a decisão do que enxergar e do que deixar de fora. Um mapa é útil justamente porque não é a cidade inteira.
O primeiro movimento
Abstração é selecionar o que importa para um propósito e deixar de lado, por enquanto, o que não importa. Quando você pensa numa pessoa como cliente, abstrai quase tudo sobre ela. Altura, gosto musical e história de família somem. Ficam só as propriedades que importam naquele contexto.
A mesma pessoa, sob a lente “cliente”
Abstrair não é perder informação por descuido, é uma escolha a serviço de um objetivo. O mesmo ser humano vira “paciente” para o médico, “passageiro” para a companhia aérea, “eleitor” para a campanha. Muda a lente, muda o que fica.
O segundo movimento
Depois de escolher o que importa, você organiza isso numa representação estruturada, feita para uma finalidade. Isso é um modelo. Ele não precisa ser matemático nem de computador: pode ser um desenho, uma maquete, uma frase ou só um jeito de enxergar algo na sua cabeça.
Distorce a geografia de propósito. Guarda só as linhas, as estações e a ordem certa das conexões, porque é isso que ajuda você a se locomover.
Reduz o prédio a uma escala que cabe na mesa. Mantém proporção e volume; ignora material, moradores e história.
Mostra quem responde a quem. Não diz nada sobre salas, personalidades ou o cafezinho da tarde.
Resume um comportamento em símbolos, para calcular e antecipar. Vale enquanto valerem as suposições que a sustentam.
Sua ideia de “como esta empresa funciona”. Invisível, informal e, mesmo assim, guia todas as suas decisões.
Todo modelo carrega abstrações, porque nenhuma representação consegue guardar a realidade inteira. Uma fórmula útil: realidade + propósito + abstração + uma forma de representar = modelo.
Ver acontecer
Uma cidade é rica demais para caber inteira em qualquer representação. Então escolhemos um propósito, e ele decide o que preservar e o que ignorar. Troque o propósito abaixo e veja a abstração (e o modelo) mudarem, sobre a mesma cidade:
Escolha um propósito
A cidade, o que fica e o que sai
Repare no que nunca acende: aparência dos prédios, história dos bairros, população. Não é que não tenham valor, é que não servem a estes propósitos. Abstrair não é simplificar de qualquer jeito, é simplificar segundo um critério.
Enfim, a IA
Agora a palavra “modelo” em “modelo de IA” para de ser um mistério. Ele é exatamente isto: uma representação estruturada, feita para uma finalidade, que nasceu de uma abstração enorme sobre uma montanha de dados.
Continuar um texto de forma plausível: dada uma sequência de palavras, produzir a próxima provável. Todo o resto é construído em cima disso.
Os padrões, relações e estilos de um mar de textos. Os documentos originais não ficam guardados; foram destilados em padrões.
Bilhões de números (os parâmetros) ajustados durante o treino. É a “estrutura” onde os padrões ficam.
Tirado num certo momento, de certos dados. Como todo modelo, mostra um recorte, não a realidade inteira nem a de hoje.
Por isso a próxima aula chama o modelo de IA de foto no tempo: uma representação estatística, tirada num momento, dos padrões que ele viu nos dados. Como todo mapa, é útil pelo que escolhe mostrar e limitado pelo que escolhe esconder.